segunda-feira, 30 de novembro de 2015

X9

Porque eu nasci na favela
Lá eu cresci a ver a vida de uma tela
E via toda manhã lá mesmo da minha janela
Meu quadro antigo persuadido
Meu quadro idêntico ao dos bandidos
Meu quadro pintado a barro
A carvão, a fumaça, cheia de bicho
Minha favela toda colorida
Cartão-postal na loja de conveniência
Junto das flores, junto do Cristo, da avenida
Onde até os cachorros não abandonam a gente
Onde a humildade a gente aprende de repente
Já quando nasce
E empresta o chinelo, a bola, o muro pra jogar
A gente tira time, se abraça, corre pra comemorar
A gente ouve tiro, se esconde tudo na mesma casa
A polícia vem, vê esses pretos todos juntos
E vai batendo um a um na nossa cara
Vai tirando pelos fundos, já virando pra parede
Porque a gente não merece nem ver quem nos ameaça
E revistam o barraco sem ninguém de testemunha
Chamam de objeto cortante até o cortador de unha
Vêm mais três de dentro do camburão
Algumas vezes vêm uns forjando prova com as próprias mãos
Vai todo mundo preso em flagrante sem nem entender
E o tiro come, o bicho pega, aparece na TV
A gente fala, fala, fala, mas ninguém mesmo quer saber
É sempre o mesmo discurso sensacionalista
De que favelado é tudo um bando de ladrão
A gente só pede um pouco de educação
Que mesmo vivendo sem escola
Não taca pedra em ninguém, não faz justiça com a própria mão
Não cerca moleque de rua e espanca no busão
A gente perdoa nossos irmão, a gente não xisnova
A gente, vivendo na contramão,
Põe a mão no fogo pra não colocar o pé na cova.

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