domingo, 8 de setembro de 2013

Elegia à morena ensimesmada

O que são esses teus olhos de manto negro
A me proteger a face da sombra noturna
Onde embriaga o encanto, plácido sossego,
Falecido na nitidez da morte, amiga taciturna.

Com ordem de quem fizeram destruir a cidade
Pra plantar tanto açúcar e vender ao exterior
Se dos terreiros de samba é que vinha a claridade
Que espalmava a fazer cera o Cristo Redentor?

Talvez hoje nada mais seja tu e eu que defuntos
Valsando misticamente por um apelo sagrado
Pois nossas almas que o são, nos prazeres conjuntos
Enquanto o corpo segue serenamente apaixonado.

*

Amiga, me empresta sua veste de pano,
Que o seda é desfeito a nossa alma vadia
Me deixa sambar o imundo, o profano,
Expulsa o eu branco e no negro irradia.

Vai e se esbalde nas rodas de samba
Me deixe te olhando, à sós com a poesia
Com ela me viro, da minha varanda
Laçando essa lua, pra não deixar vir o dia.

Protege seu poeta da madrugada
Me esconde na saia confundida com pele
Vem, nega, enfeita meu samba, minha toada
Pra que quando eu morrer finalmente sossegue.

***

O que é que tem de errado te querer desse jeito, morena, porque eu nada sou, nadinha, que não seu amante desconsolado; deixa eu ser teu, neguinha, deixa eu compor uns sambas mesmo com o peito desafinado. Você finge que gosta, sorri engraçado e dança um samba, delícia, enquanto eu recito; com muita cerveja a gente convence o proletariado e disfarça a roda de samba que com a fúria dos seus pés se enfeitiça. Vem, senhora, senhorinha, que eu não sei sambar assim não, mas se em cada roda ‘cê tá entrando, entra junto meu coração. Eu fico do lado de dentro te poetando, pois o lado de fora é perigoso é escuridão, ainda mais eu sendo poeta enforcado pelas coxas que tanto exibes em praça pública com crime de paixão; to jurado de morte, viu, desculpa a exatidão é que o brilho dos teus olhos compensa todo castigo, cadeia, terreiro, mas desculpa do fundo do meu coração.

*

Não devia te pedir, porque sei que tá errado
Seu malandro não samba, não toca,
Vive doente, ainda agora tá com o peito surrado
Mas garanto que como ninguém ele foca

No seu quadril balançando e tá jurado no amor
Porque nasceu foi pra isso, carioca da gema,
Conhece tudo que é samba, se reconhece no tambor
E ainda assim sabe das artes, é teatro, cinema.

Te mostro meu mundo, você me infiltra nessa quentura
Que o rimo esquenta tua pele, a alma, de tudo
E é matéria pros poemas de sua criatura
Que compõe feito grande, com o peito até mudo.

Vem cá, morena, me chama alucinação amada
Me chamo de teu, confusão, poeta
Essa figura de ti enamorada
Que nossa alma sublime desinfeta.

*

Deita teu cansaço na face noturna
E caminhe até mim, senhora, amada
Deposita teu corpo no amor como em urna
E dela sejamos, fielmente, namorada.

Elejo a morte nossa madrinha, protetora
Pra morrer de amor a cada instante
Quem melhor que a mãe, genitora
Pra velar-nos com tranquilo semblante?

Deita comigo, amada, a gente samba amanhã
Que hoje somos do outro um refém
Seja minha amiga, companheira, irmã
E caminhemos calmamente...
                                          Amém.

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