quarta-feira, 8 de maio de 2013

Sobre olhos de materiais de limpeza.

Eu tenho quarenta e nove anos
Já dancei ciranda, samba, bolero,
Já passei montanhas de roupas,
Lavei montanhas de louças
Encerei céus de chãos
Já enterrei meus pais, marido,
Enterrei aquela que me ensinou a ler.
Enterrei os livros que li
Os autores dos livros que li
Enterrei meus atores favoritos
Meus filmes, resenhas, jornais...
Nunca entendi muito de poesia
- Sempre evitei esse desenrolar.
Eu preferi desenrolar os cabelos
Das minhas filhas, sobrinhas, netas.
A filosofia que estudei é mais interna
Minha noção de Deus, de casa, amor,
A responsabilidade de uma nova vida
E as récitas, que eu nunca imaginei récitas,
Enquanto fazia faxina em casa.
Aquele monólogo essencial
A necessidade de juntar sabão, vassouras
E sujeira para limpar a agonia
Dos poemas que não sabia necessitar.

Quando criança escrevia em papeis de pão
E por isso aprendi a nunca aprisionar as palavras
Tudo o que eu queria dizer, tinha que ser dito
Porque poucos são os que leem
E, com isso, aprendi que poucos são os que ouvem.
As palavras simplesmente flutuam a minha volta
E essa minha necessidade de falá-las, chamam poesia.

Eu nunca juntei um par de versos,
Nunca casei uma estrofe, mas já fui casada duas vezes
Primeiro, aprendi a métrica, faltou-me poesia.
Depois, aprendi o sentimento, mas a métrica me faltou.
Não sei respeitar essa mania de perfeição
Pois justo o que me é perfeito, lhe é imperfeito.
Metricamente, a vida me basta
- e às vezes expulsa uns poemas.

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