domingo, 6 de maio de 2012

Perdão se (ainda) lhe chamo de amor.

Às vezes me parece que Vinícius toma minhas mãos e começa a te escrever desesperadamente, amor, mas Vinícius não lhe conheceu. Eu lhe conheci. E, se ele conhecesse, acho que não se apaixonaria por você. Vinícius é moço boêmio e tem lábia. Conquista qualquer moça que quiser só com um pequeno desconcerto de palavras. Vinícius faz ópera. E, acima de qualquer coisa, sempre teve caráter e não roubaria alguém que mexeu tanto com o meu coração.
Então eu te escrevo. Eu te escrevo desesperadamente. Eu te escrevo assustado, te escrevo louco, te escrevo bêbado e depois, na ressaca, te vomito inteira. Vomito cada parte de você que eu engoli, que arranquei e que destilei. Você achava incrível a minha técnica de roubar as mulheres: escrevo um poema, a enveneno, a faço entrar em transe e é aí que eu roubo seu coração em pequenas mordidas. Mas não é de propósito, amor. Poesia sempre foi o meu forte e as mulheres sempre caíram aos meus pés por causa delas. Mas você foi diferente, você resistiu até a última gota, você lutou contra mim, contra os meus versos, contra todas as línguas que eu falava porque você não se impressionava com um par de estrofes. Você falava tantas línguas que te beijei em francês, inglês, alemão e até turco. Eu nunca tinha conhecido uma mulher que falasse turco. Seu sotaque era tão bonito e quando você recitava meus poemas em francês e eu ficava louco de prazer, te amando em 360 rotações por minuto, mas você já dera a volta ao mundo. Era moça experiente, gostava de se sentir no alto, mas morria de medo de patins e eu tinha um par de patins que ganhei com nove anos de idade escondido no armário e você jurava que me queria ver andando, me ver tropeçando, caindo e, por fim, quando eu estivesse todo machucado no chão você daria três passos até a saída, só para que eu sentisse um terço da dor que você sentia quando eu te deixava sozinha e sumia por horas, dias e semanas. Você amava velejar e eu tinha um barco de pesca que você jurava que mal aguentava o nosso peso, mas que nunca nos deixou na mão. Nem naquele dia que eu te levei para o outro lado do lago, aquele com árvores rasteiras e um caminho curto. Você se lembra desse dia, amor? Você jurava que eu estava preocupado e eu fiz de propósito, inventei uma desculpa daquelas para lhe assustar. Se lembra da sua reação quando eu apontei para os bambus e disse que tinha lido que onde tem bambu tem cobra? Você me olhou fixamente por uns 50 segundos, depois olhou para o bambu por mais 30 e começou a chorar. Uma moça forte como você começar a chorar daquele jeito, na minha frente, não era boa coisa. Aí você me disse que quando era pequena teve o desprazer de entrar na mata com seu pai e quase morrer por uma picada de cobra. Então me aproximei de você e a abracei. Você me beijou o beijo mais intenso que eu já tinha recebido (aposto que era grego!) que derivou o sexo mais sincero que já tínhamos provado.
Eu sou teu escravo, teu mordomo, teu copeiro, teu cozinheiro. Sempre fui teu criado, segurança, motorista. Sempre fui tua chaleira, guarda-roupa, vitrola e janela. Você sempre me odiou tão docemente, como quando eu fui gravata e enforquei teu terceiro esposo, ou quando fui armário e escondi seu primeiro amante e até mesmo quando fui saleiro e quase matei seu terceiro namorado depois de mim. Eu morria de medo de você não me plasmar, ou me descobrir. Como naquela noite em que você quase me ligou e eu era telefone, eu te fitava sem demonstrar qualquer emoção enquanto você discava meu número e nunca o terminava. Não briguei contigo por ter escrito meu nome tantas vezes e cuspido, rasgado, queimado, não, não, não brigo. Gosto da sua grafia, sempre gostei. Sempre tive medo de você esquecer como soletra meu nome. Sempre tive medo de você resolver arrumar o guarda-roupa e encontrar a rosa de papel crepom que eu te fiz. Sempre me apavorei quando você abria sua gaveta de calcinhas tão rápido para escolher uma, vivia com medo de você encontrar aquele laço que eu mesmo fiz, todo atrapalhado, que parece qualquer coisa, menos laço. Você diria que parece nó. Eu pareço nó. Eu sou nó, amor? Se eu não sou nó, por que não me solto? Porque não desenlaço como você fez? Porque simplesmente não saio sem qualquer vestígio de imperfeição? Eu sempre desamarrei os nós com a boca e minha mãe jurava que eu machucaria meu dente. Eu nunca levei a sério. Não olhe agora, mãe.
Você parecia minha mãe quase sempre, brigando comigo aos berros, me olhando feio, se orgulhando e querendo contar tudo de mim para todo mundo: “Porque o meu namorado escreve poesia. Porque o meu namorado gosta de dançar. Porque o meu namorado conheceu Vinícius de Moraes, o Poeta, você conhece? Porque o meu namorado sabe fazer comida. Porque o meu namorado é um birrento!” Minha mãe costumava dizer que quando alguma coisa não queria sair a melhor coisa a se fazer era usar uma faca. Eu ria em silêncio, com meu instinto suicida, assassino e não sei mais o quê. Mas eu bem que podia cortar esses nós.
Assim que nos conhecemos eu enviei uma carta muito rebelde para o senhor prefeito de São Paulo enumerando cem motivos para se orgulhar de abrigar uma moça como você e mais cem – recheados de lamúrias – enumerando todos os motivos para transformar Rio de Janeiro e São Paulo num estado só. Ele respondeu educadíssimo. Me chamou até de “PREZADO POETA”, assim mesmo, em maiúsculas. Disse que não cabe a ele decidir uma coisa dessas e que é tarefa para o presidente do Estado. Disse também que sente muito por ser tão infeliz e me apaixonar logo por uma mulher paulistana. Eu poderia imaginar muito bem um sorriso irônico ao dizer isso e pude comprová-lo com o final de sua frase: “(...) Sinto muito por ser tão infeliz e se apaixonar logo por uma mulher paulistana, afinal, você é carioquinha e nasceu pra se apaixonar e viver feliz. Mas paulista é triste. Paulista não tem vida. Vive trancado num escritório, numa loja, numa fábrica ou num bazar. Só para pra pegar um café e até isso é correndo. Desejo toda a sorte do mundo (porque você vai precisar)”.
Não demorei nem uma semana para respondê-lo. Disse que ele era prefeito e que isso devia significar alguma coisa além de responder cartas e destruir sonhos. Disse que ele não conhece sua cidade e que, sob o seu céu, tem muito mais sonhos do que pesadelos.
Ele nunca me respondeu.
E nem você.

4 comentários:

  1. Teu texto me chamou a atenção pelo Vinícius ali no primeiro verso. E aí foi me levando como Bossa, como Chico - turco, patins, isso é tão Chico - e aí amor, e aí floresta, e aí sexo, e aí amor, e aí saudade, e aí tristeza, nossa. Fantástico.

    ResponderExcluir
  2. Psiu, menina. Como vai? Mantive-me afastada disso tudo, e você não imagina o quão difícil foi. Mas, voltei. Voltei e me encantei com tal beleza de texto. Poesia pura nessas palavras, que embalaram minha leitura e me fizeram me sentir dentro do texto, personagem viva, moldada na minha cabeça, que sentia toda aflição do personagem criado por você. Eu gosto quando uma produção textual me prende tanto assim. E por isso, eu digo baixinho: eu volto. Eu volto e gostaria que você, assim como eu fiz, também invadisse meu mundo literário e deixasse sua opinião por lá, menina. E parabéns, tua escrita é maravilhosa.
    Até mais! Um beijo, @pequenatiss.

    ResponderExcluir

(Como eu estou escrevendo?) Acrescente suas ideias, estrelinha...