sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

À minha rua metrificada.

A minha rua é grande e pequena como uma ferida
E o silêncio das casas que me fitam, desalojadas,
Parece eterno para os meus olhos que não vêem.
Os bueiros e esgotos da minha rua são a mordida
Dos motores e das engrenagens tão desgastadas
Que se morrem enquanto vocês, leitores, me lêem.

Minha rua abriga os gatos e pássaros esquecidos
E as árvores podadas parecem estátuas: imóveis
A minha rua vomita uma nova música em cada lar
E os miados roucos embalam-se com os gemidos
Dos mortos vivos que tropeçam em seus móveis
Insones, porque não existe ninguém a lhes amar.

A minha rua, o lar onde encontram-se os pecadores,
Os loucos, desalmados, solitários e até os mortos
Enterrados debaixo da sacada, no tapete do portão.
Se você ficar em silêncio, até pode ouvir os rumores
De que existem, é claro, os homens inteiros tortos
E tão sofredores que arrancaram o próprio coração.

Na minha rua eu deixei a angústia que me apodreceu
A ironia é que foi lá, na rua, onde me descobri Poeta
Lhe confesso esta rua que me horrorizou o universo
Mas foi lá que enterrei no esgoto o que me adoeceu
E me feri para o sangue escorrer sobre a minha meta
Que era renascer para aprender a não morrer verso.

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