domingo, 25 de dezembro de 2011

Quando eu quis viver de poesia.

Quando eu quis viver de poesia fui um desastre! Minha mãe, coitada, vinha me lendo, apavorada, com medo de uma mulher que tão amada podia me fazer tanto rimar. O meu pai, já nem se fale! Desistia nas primeiras linhas com o desespero falho e a memória corrida procurando o que fez de errado. Minhas namoradinhas riam e riam envergonhadas por um Poeta que já foi fisgado, com o coração cantado e os poemas metrificados que só dava pra chorar de amor. Quando eu quis viver de poesia fui um desastre! Os críticos só falavam mal de mim: eu era jovem demais pra falar daquelas coisas que ninguém vê. Os velhinhos que viviam jogando buraco lá na praça me olhavam e faziam silêncio quando eu sentava em um daqueles bancos, todo imundo, e começava a suspirar. Eu sorria para aquelas moçoilas de vestido florido e pra aquelas quase princesas de marias-chiquinhas que não sabiam meu nome e que protagonizavam meus poemas de amor, que chorava e chorava em verbos e palavras difíceis que eu usava fora de conjugação por ter preguiça de olhar o dicionário.
Quando eu quis viver de poesia passei dias e dias trancado no quarto, com um caderno todo rasgado, rasurado, molhado e sujo... Passei os dias olhando o telefone que não tocava... Passei os dias olhando pela janela esperando algum passarinho trazer em seu bico uma carta de amor. Quando eu aprendi a fazer versos eu estava louquinho e só sabia dizer eu te amo e rimar amor com o nome dela. O nome dela não rimava, ele era todo pretérito mais que perfeito e ela era toda mais que perfeita. Quando eu quis viver de poesia fui um desastre! Marquei as páginas com os dias que estivemos juntos e desenhava carinhas tristes em todos os dias que ficamos sem nos falar e carinhas sorridentes nos dias que ficávamos juntos. Fiz sonetos e elegias, fiz tercetos e poesias, fiz carinhos nos detalhes e brincava de amor... Foi um escândalo quando lancei meu primeiro livro... Ninguém quis comprar poesia de criança, inda mais criança apaixonada... Inda mais um livro inteiro feito pra uma pessoa só. Quando eu quis viver de poesia fui um desastre! Porque verso é coisa de gente grande, gente sabida das coisas e eu era só um Poetinha correndo perigo por estar tão apaixonado e se deixando de castigo por viver me colocando do seu lado, mas não conta pra ninguém que ela já me fez refém e eu estou com medo de ser preso por chorar feito neném em plena madrugada porque entrei numa cilada e meu amor tá longe, longe, e eu quero ir pra lá só pra fazer dedicatória em sua pele da antologia que te fiz.

Um comentário:

(Como eu estou escrevendo?) Acrescente suas ideias, estrelinha...