terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Segredos noturnos de cidade grande. I

Teias de aranha nos olhos,
A tanto que não durmo.
Ouve-se daqui a revolta desesperada
Do mundo atrás de minha janela
A gritar.
E detrás do apartamento vizinho
Uma criança chora.
A mãe a alimenta, mas não se cala.
A mãe canta, a criança dorme.
O vandalismo prossegue
Acorda a criança.
Lá se vai meu sono.
Criaturas noturnas destroem as cidades
A espera do super-herói.
Mas eu não o vi chegar essa noite,
Onde ele está?
Se a cidade amanhecer e ver os prédios quebrados,
Cidade alagada pelo hidrante,
Acharão que houve tempestade.
Parece mitologia.
Enormes.
Gordos.
Asquerosos.
Da janela do penúltimo andar eu via tudo.
E eu andava em círculos na frente da janela
Esperando o super-herói chegar.
E não vinha.
A criança gritava, a mulher acordava, levantava e a acalmava.
Começa a chover. Ou um desses animais espirrou?
O prédio vizinho está coberto por uma gosma.
Não quero saber o que é.
Talvez o herói precise de uma mocinha pedindo ajuda.
Apoio meu corpo na janela e a cabeça para fora:
“SOCORRO, SOCORRO! AH, SOCORRO!”
Os vizinhos gritam “SHHHHH”,
Outros me mandam dormir,
Mas não vêem lá embaixo, todo o estrago.
Vejo aparecer na linha do horizonte um gigante
Ele está andando sobre a água?
Continuo a esperar o herói.
O gigante vem rapidamente.
Tropeça numa rocha e cai.
Que explosão de água.
E molha toda a cidade.
As estrelas vão sumindo.
Ele segura no Pão de açúcar,
Levanta devagar,
Puxa uma estrela,
Agora está flutuando.
E o herói que não chega?
O silêncio foi feito.
O gigante encara o Cristo Redentor
Assopra três vezes
E a estátua vai voando
Para longe.
Minhas pálpebras estão pesadas,
Vejo um homem.
Caio.
Ouço-o dizer entre dentes
Que tudo ficará bem.
À noite me acolhe como uma amiga,
Acordo deitada na cama
Esquecida. Lembrada.
A criança grita novamente,
Minha cabeça pesa.
Vou até a janela com esforço
O mundo está salvo,
Tudo limpo, tudo calmo.
Guardemos segredo sobre o que acontece nas noites
Desertas e suadas do Rio de Janeiro.

Um comentário:

  1. É, mantemos segredo, porque a verdade nua e crua dói mas vem.

    ResponderExcluir

(Como eu estou escrevendo?) Acrescente suas ideias, estrelinha...