terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Reverência em tua ausência.

             


O Sol resplandecia no alto do céu azul, a estrela brilhava em tamanha abundancia que a impossibilidade de olhar para cima somente aumentava, eram 11 horas, estava cedo e o Sol queimava a cabeça das pessoas, o calor tendia a aumentar com o passar do tempo. O barulho, as discussões, tudo enlouquecia ainda mais as pessoas naquele dia. Uma criança pequena na praia, despreocupada, montava seu castelo de areia, seus olhos azuis fixos nas partículas brancas que ia juntando e em mente o lindo edifício que montaria. Soava, de tempos em tempos arrastava as costas da mão direita na testa e olhava o mar, não abandonaria sua obra por mais que esteja sufocando com aquela umidade e a água gelada pareça atraente aos seus olhos. Vira-se para seu castelo de volta, continua a construir e eu parada ali o observando. Suas mãos trabalhavam como um artista: puxa areia, joga areia, cava, cava, respira fundo, olha para o céu, vira para o mar e volta ao trabalho. Esta era rotina. Seu edifício crescia e ele se orgulhava cada vez mais do trabalho que estava a cumprir. Mal esperava para mergulhar naquela imensidão de azul, naquela água cristalina que o levaria a um prazer intenso de ter cumprido seu objetivo e poder voltar para casa alegre depois de fazer algo que o fizesse bem. Poderia ser um arquiteto no futuro ou mesmo um desenhista. Parecia certo de que faria uma obra prima aos seus olhos e que passaria a vida inteira lembrando-se de seu trabalho. As outras crianças mergulhavam contra as ondas, gritavam, sorriam, parecia não notar a presença do pequeno artista ali sentado, corriam sobre a areia, jogavam água uma nas outras, riam e sem se preocupar com o imenso sol que as fitava, nadavam. Seus pais gritavam alto: “Filha/Filho, volte para cá, o mar está te puxando para o fundo!”. A primeira coisa que notei, ao ouvir esses pais berrando, foi que a criança estava sozinha, sob o Sol, sem companhia e nem mesmo um adulto ia até ele pedir para se molhar um pouco.
Decidi levantar e ir até ele, perguntar seu nome, sorrir e lhe fazer companhia, mas talvez o incomodasse ou o distraísse. Levantei devagar, sacudi o forro que estava sob meu corpo e sentei novamente, a criança não estava mais lá quando olhei. Ele havia sumido, continuei fitando o local, ainda havia o castelo meio montado. Ele voltou, agora com o cabelo molhado e uma garrafa de água, provavelmente os pais dele pediram para que ele tomasse. Percebi que era pequeno, teria uns cinco ou seis anos, sentou-se, tirou o cabelo molhado do rosto e continuou a construção. Passaram-se horas e já estava anoitecendo, o pôr-do-sol era admirado por todos os presentes na praia, o menino olhava uma ou duas vezes para cima e via o sol indo embora. Algumas estrelas ocupavam a grande imensidão do negro que se formava, disputando o brilho, concorrendo sua beleza com tantas outras. O menino terminara seu projeto, levantou-se devagar, olhou para o castelo já formado sorrindo. Fitou sua construção, respirou fundo, fui até a beira do mar, molhou o rosto com a água gelada que batia contra seus pés finos, voltou-se para o castelo e num sorriso astuto, chutou a areia, com força destruiu todo o morro de areia que o ocupou durante o dia. Destruiu sua construção, destruiu tudo. A areia voava contra o mar e ele sorrindo continuava chutando. Deitou-se na areia e olhou o céu negro coberto de estrelas, feliz e ousado. Levantei no mesmo instante e deitei ao seu lado, observando o céu junto dele.
- Por que fez isso? Estou aqui desde cedo e vi os esforços que teve ao construir isso. – Disse tranquilamente, mas deixava a mostra minha preocupação no tom de voz.
- Se eu não derrubasse... – Ele disse numa voz rouca e falhando – Alguém faria isso, querendo ou não... – respirou fundo – As pessoas não valorizam um trabalho duro e de coração, só ignoram.
Fiquei boquiaberta com o que a criança acabara de me dizer. O céu estava lindo, as estrelas tão próximas como eu nunca havia visto.
- Um dia elas apreciarão as obras que fazemos com tanto esforço, pequeno e o mundo finalmente será um lugar habitável.
- Não desista das suas construções, moça. – Ele se levantou, correu para perto de uns adultos que já iam embora e se foi, pulando, sem ao menos olhar para trás.
Fiz naquele dia, um novo amigo, um garotinho distraído e esforçado, sonhador, de cabelos ruivos cacheados e olhos azuis, com a mente incrível e um talento que não se pode ser jogado fora.

Meus olhos gritam em encontro aos teus
Que com divina sensualidade
Acompanham
O bater das ondas do mar.
Sol és estrela que disputa brilho abundante
Com o ousado dos olhos teus.
Toda a natureza Reverência,
Invejando sua glória.
Seus olhos estão distantes de onde navegam
Naufragam dentro dos meus.

A vi sentada, observando o mar quieto e misterioso, admiro a ti na quieta distancia que nossos corações impôs a mim. Pretendo não quebrar minha promessa, querida, mas aquela criança construiu seus sonhos na beira do mar, por que eu não poderia realizar os meus ali também? Tu sabes que hei de amá-la, apreciá-la e contemplá-la. E talvez haja para uma de nós um final feliz. Sem amor, sem glória.

5 comentários:

  1. Com certeza haverá final feliz, e isso não significa que só existe uma possibilidade de felicidade.

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  2. Compriiiiiiiiiiiido. UIDASIUOIUODSAUIODSAUIO E bem escrito.

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  3. Daniela: Você tem razão querida, obrigada por ter lido.

    Karoline: Muito obrigada pela presença e pelo comentário (elogio).

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  4. Oh, é mais que verdade o que este menino disse. Se sua construção - que levou tanto tempo para ser montada - estiver no caminho de outrem, das duas uma: ou a pessoa derruba o que você fez para chegarao seu propósito ou ignora ser trabalho duro. E raro - muito raro - alguém parará e contemplará o que você fez. Mas isso não é desculpa para destruir a si mesmo, não é, garotinha esperto?

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  5. Nasaneeds: Eu fiz desse texto uma metáfora e você entendeu perfeitamente, querida. Poucos serão aqueles que contemplarão, infelizmente. Enfim, obrigada pela sua visita e pelas palavras.

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(Como eu estou escrevendo?) Acrescente suas ideias, estrelinha...