segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Espírito Natalino Traidor.



A família reunia-se naquela imensa mesa todos os anos naquele dia, as crianças sentavam-se em cadeiras altas misturadas aos adultos, refeição típica daquela data, sorrisos disputavam seu lugar nos rostos, desde tias gorduchas até primos implicantes. Tias apertavam bochechas gordas e vermelhas, tios batiam nas costas dos meninos, um beijinho em cada bochecha seguido de “Para casar”. Música alta fazendo a casa tremer. Mas ainda havia aquele vazio, aquele espaço em branco, aquela solidão entre o menor espaço, menos visível, que notava a falta de um homem. Talvez este espaço fosse ao coração da dona-de-casa, talvez fosse aos olhos brilhantes das crianças ou até mesmo naquela foto dobrada e redobrada escondida na gaveta. Falta ele fazia sim, como marido, como pai, como tio, como primo e como amigo.
Fez a família ajeitar-se com o tempo depois de dor e ilusão, mas passou, tanto tempo fazia que nem sua falta deveria sentir, mas havia parte dele na pequena menina isolada de todos, com uma folha em branco nas mãos, tentando lembrar seu nome, tentando recordar o quanto sofreu por não estar contigo. A mesma menina que chorou quando você se foi, a mesma criança que fitou o telefone durante horas no aniversário, esperando uma ligação sua, um sorriso seu ou apenas um “olá”.
A família grita e ela levanta devagar, arruma seu prato e volta para o seu canto, recusa-se a sentar-se à mesa, não quer sorrisos, não aceita palavras de consolo. Apenas tenta descobrir o que havia de errado consigo para que o pai não queira dela o amor que tanto sobra. O amor que nela sobra, nele falta. O mesmo com o cuidado, o carinho e até a felicidade.
Poderia pensar que ele sente saudades e com esperanças está debruçado contra o telefone, lembrando dos momentos ao seu lado. Mas ela sabia que seria apenas ilusão, resolveu não fazer nada além de uma surpresa: desenhou com giz de cera um homem alto, com as mãos largas e um sorriso no rosto na frente de uma menina pequena, com lágrimas nos olhos e um sorriso tímido, estendendo as mãos para ela. Escreveu no verso: “Eu amo você.” Não ousou chamá-lo de pai, o desenho já dizia por si só. Na manhã seguinte pediria para algum desconhecido colocar na caixa do correio e finalmente haveria dentro de si, o tal espírito natalino que há tanto tempo faltou.

7 comentários:

  1. Sou sua primeira seguidora. Primeira leitora. e já primeira admiradora.

    Oh, chérie. Está lindo. Sabe a única coisa que machuca? Que aí tem alguns pedacinhos de minha vida. Meus olhos agora se encontram embaçados.Depois conte-me de onde surgiu a idéia do nome do blog.

    Parabéns.

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  2. Eu queria poder mudar essa realidade, pra não te ver sofrer. Eu amo você. <3

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  3. Nasaneeds, oh, obrigada por aparecer por aqui e por fazer-se leitora, é grande honra saber disso. Não foi minha intenção fazê-la sentir-se assim. Contarei melhor sobre o nome depois, ok? Obrigada, novamente.


    Daniela, obrigada por ler, mas essa realidade nem mesmo eu posso mudar, desculpe.

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  4. Adorei. O modo como escreveu o primeiro parágrafo me assustou, tudo tão real.

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  5. ás vezes está dentro de voce. (:

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  6. Ás vezes criamos princípios organizadores inconscientes, ou seja, não damos a chance de nós mesmos nos conhecermos, de aceitarmos novas ideias, assim, damos caminhos á antigas convicções.

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(Como eu estou escrevendo?) Acrescente suas ideias, estrelinha...