quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

LEI DE DESCASO E EFEITO

O sangue que escorre do meu peito
Ainda tem o gosto de poeira
Da areia lamacenta do navio negreiro,
A minha favela disfarça a senzala
Minhas crianças magricelas
Tem ainda a mesma cara.
Substituíram as chicotadas
Por balas perdidas que nos encontram
Que a gente tropeça já na descida
Pra não conseguir chegar no asfalto
Onde quem chega é sempre vigiado
Onde se ouve nos rádios da polícia:
“Tá tranquilo, ele tá cercado”
E te esperam dar o primeiro passo errado
Pra jogar no camburão
E ser o primeiro a enfiar a mão na nossa cara,
A chicotear com cassetete...
A gente, acostumado a apanhar de vara,
Onde desde cedo nos algemam no seu fuzil
Que nem fazem o favor de virar pro lado
Enquanto a gente fala
E se explica e gagueja e fraqueja
Porque a justiça para a gente é calada
Nos tribunais vendem a nossa cabeça
E entregam em leilão numa bandeja.

Eles põem a gente em cativeiro
Cada vez mais cedo pra não dar tempo de crescer
E aprender a dizer tudo isso
Que mal dão oportunidade da gente entender,
Pois não dá pra chegar nem na porta da escola
Sem ser acuado a traficar droga
E cada vez mais jovens nossas crianças são tomadas
Cada vez mais pobres mantém suas prisões lotadas
Cada vez mais nobres exibem suas mãos manchadas
Do sangue das nossas crianças
Que tem que dividir cela com marmanjo de idade
Que promete futuro e identidade
Até porque a gente não sai dali pra faculdade
Nossos filhos fadados a nascer em cativeiro
A construir a própria senzala - sem dinheiro,
Com o entulho que sobra da sua mansão de luxo
E se veste com os remendos da sua pele de cordeiro
Desde cedo a gente ouve: segue o fluxo
E torce pra conseguir dormir a noite
Com a polícia revistando nossa senzala
Com a polícia justificando a sua falha
De matar um inocente a 15 balas
Que acertaram de raspão no coração
E eles não são culpados, não
Culpada é toda essa nação
Que culpa a gente de nascer em cativeiro
Que não oferece educação ou mesmo emprego
Onde os meus filhos eu tenho que fazer bem cedo
Pra conseguir ver os meus netos
Nascendo já com esse olhar de medo
Porque até lá com 10 já pode ser preso
E vão recrutar cada vez mais cedo
E a arma que nos dão não é de brinquedo
E a vida roubada nunca foi segredo
Pra ninguém.
Porque favelado é tudo sem educação
E não merece conviver com a sua estirpe
De sinhôzinho e sinházinha
Que o livro de história prega
Mas cada história é contada de um jeito
E enquanto enchem a cidade de bustos
De um monte de sujeitos ditos justos
Vocês esquecem que são dois lados na moeda
E que existe uma lei de causa e efeito
E essa é a única lei que existe na favela.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

X9

Porque eu nasci na favela
Lá eu cresci a ver a vida de uma tela
E via toda manhã lá mesmo da minha janela
Meu quadro antigo persuadido
Meu quadro idêntico ao dos bandidos
Meu quadro pintado a barro
A carvão, a fumaça, cheia de bicho
Minha favela toda colorida
Cartão-postal na loja de conveniência
Junto das flores, junto do Cristo, da avenida
Onde até os cachorros não abandonam a gente
Onde a humildade a gente aprende de repente
Já quando nasce
E empresta o chinelo, a bola, o muro pra jogar
A gente tira time, se abraça, corre pra comemorar
A gente ouve tiro, se esconde tudo na mesma casa
A polícia vem, vê esses pretos todos juntos
E vai batendo um a um na nossa cara
Vai tirando pelos fundos, já virando pra parede
Porque a gente não merece nem ver quem nos ameaça
E revistam o barraco sem ninguém de testemunha
Chamam de objeto cortante até o cortador de unha
Vêm mais três de dentro do camburão
Algumas vezes vêm uns forjando prova com as próprias mãos
Vai todo mundo preso em flagrante sem nem entender
E o tiro come, o bicho pega, aparece na TV
A gente fala, fala, fala, mas ninguém mesmo quer saber
É sempre o mesmo discurso sensacionalista
De que favelado é tudo um bando de ladrão
A gente só pede um pouco de educação
Que mesmo vivendo sem escola
Não taca pedra em ninguém, não faz justiça com a própria mão
Não cerca moleque de rua e espanca no busão
A gente perdoa nossos irmão, a gente não xisnova
A gente, vivendo na contramão,
Põe a mão no fogo pra não colocar o pé na cova.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Que diabos a baiana tanto tem?

Que diabos a baiana tanto tem
que todo mundo quer cantar?
É rabo de saia, pois é
e tem um gosto de mar...
Lava meu perfume importado
com seu suor a me banhar
tira do meu baticum esse fado
ao me tirar pra sambar
pôs no meu pescoço umas guias
e esse tal de patuá
me explicou dessas suas magias
falou de cada um orixá
depois, das noites de euforia
essa bastou me mostrar
e a seriedade da Bahia
pra além de qualquer mar.
A baiana enfeitiça, verdade
e eu, que nem sinto saudade
das negas do além-mar
quero plantar nessa terra
umas crianças que berram
pra minha alma acordar.
Agora fala do mundo de frescura
que fez minha alma desamar
não ouse não chamar de cultura
essa baiana que tanto faz rebolar
é tanta raça e brandura
que a nega perde a cintura
de tanto se deslocar
enquanto seu moço do lado
bate um pandeiro inspirado
o bicho só falta falar!
Ela me chama estrangeiro
e brilha os olhos pro mundo de lá
mal sabe a baiana da festa
que eles nem sonham existir,
suas plantas e ervas são ouro
sem contar que nunca me derramou um choro
baiana só sabe sorrir.

domingo, 8 de setembro de 2013

Elegia à morena ensimesmada

O que são esses teus olhos de manto negro
A me proteger a face da sombra noturna
Onde embriaga o encanto, plácido sossego,
Falecido na nitidez da morte, amiga taciturna.

Com ordem de quem fizeram destruir a cidade
Pra plantar tanto açúcar e vender ao exterior
Se dos terreiros de samba é que vinha a claridade
Que espalmava a fazer cera o Cristo Redentor?

Talvez hoje nada mais seja tu e eu que defuntos
Valsando misticamente por um apelo sagrado
Pois nossas almas que o são, nos prazeres conjuntos
Enquanto o corpo segue serenamente apaixonado.

*

Amiga, me empresta sua veste de pano,
Que o seda é desfeito a nossa alma vadia
Me deixa sambar o imundo, o profano,
Expulsa o eu branco e no negro irradia.

Vai e se esbalde nas rodas de samba
Me deixe te olhando, à sós com a poesia
Com ela me viro, da minha varanda
Laçando essa lua, pra não deixar vir o dia.

Protege seu poeta da madrugada
Me esconde na saia confundida com pele
Vem, nega, enfeita meu samba, minha toada
Pra que quando eu morrer finalmente sossegue.

***

O que é que tem de errado te querer desse jeito, morena, porque eu nada sou, nadinha, que não seu amante desconsolado; deixa eu ser teu, neguinha, deixa eu compor uns sambas mesmo com o peito desafinado. Você finge que gosta, sorri engraçado e dança um samba, delícia, enquanto eu recito; com muita cerveja a gente convence o proletariado e disfarça a roda de samba que com a fúria dos seus pés se enfeitiça. Vem, senhora, senhorinha, que eu não sei sambar assim não, mas se em cada roda ‘cê tá entrando, entra junto meu coração. Eu fico do lado de dentro te poetando, pois o lado de fora é perigoso é escuridão, ainda mais eu sendo poeta enforcado pelas coxas que tanto exibes em praça pública com crime de paixão; to jurado de morte, viu, desculpa a exatidão é que o brilho dos teus olhos compensa todo castigo, cadeia, terreiro, mas desculpa do fundo do meu coração.

*

Não devia te pedir, porque sei que tá errado
Seu malandro não samba, não toca,
Vive doente, ainda agora tá com o peito surrado
Mas garanto que como ninguém ele foca

No seu quadril balançando e tá jurado no amor
Porque nasceu foi pra isso, carioca da gema,
Conhece tudo que é samba, se reconhece no tambor
E ainda assim sabe das artes, é teatro, cinema.

Te mostro meu mundo, você me infiltra nessa quentura
Que o rimo esquenta tua pele, a alma, de tudo
E é matéria pros poemas de sua criatura
Que compõe feito grande, com o peito até mudo.

Vem cá, morena, me chama alucinação amada
Me chamo de teu, confusão, poeta
Essa figura de ti enamorada
Que nossa alma sublime desinfeta.

*

Deita teu cansaço na face noturna
E caminhe até mim, senhora, amada
Deposita teu corpo no amor como em urna
E dela sejamos, fielmente, namorada.

Elejo a morte nossa madrinha, protetora
Pra morrer de amor a cada instante
Quem melhor que a mãe, genitora
Pra velar-nos com tranquilo semblante?

Deita comigo, amada, a gente samba amanhã
Que hoje somos do outro um refém
Seja minha amiga, companheira, irmã
E caminhemos calmamente...
                                          Amém.

sábado, 3 de agosto de 2013

Sobre cada segundo das luas.

Me arranque desses bares escaldantes
Não, amor, não somos amantes
Somos a maciça polpa
Me poupa dessas inspeções que fazes
Se quiser, somos cartazes
Expostos noite afora,
Constrangendo esses aí, que vão morrendo.
Amor, faz o favor
E trate de beijar cada senhora,
Pra que sintam isso tudo
O que sinto agora.
Deixe que dos moços cuido eu
Ah, aproxime-se querido plebeu.
Como o mundo pode não conhecer
É quase crime! Nos deveriam prender
Estamos à altura
Nos enterremos no céu, numa mesma sepultura
Que esse mundo sequer nos merece.
Só eu vejo a forma que ele perece?
O amor, esse sim me endoidece!
Meus poemas são quase uma prece
Meu amor inteiro é uma reza
Essa, que você boceja, despreza
E eu vou colher as sementes
Nos olhos amados, quase doentes.
Mas não ouse chamá-los amantes
Os amores são todos gigantes
E o de agora não é como o de antes
E a vida, minha amorosa criatura
Desacostuma: goza e amargura
E nos põe a todos doentes
Da pinga quente, fervente
Que escorre do céu, das estrelas
Depois nós somos os decadentes
Felizmente, o que eu sinto tu sentes,
Não sentes?
Depois vamos todos pra casa,
Curvados à luz do dia, que é rasa
Ou ela nos bate na porta
[às vezes arromba,
- a vida me assombra].
E a gente aguenta calado
Mas não há qualquer desculpa
A verdade é que a vida tá morta
Com o seu pano surrado
Disfarçada de adulta.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Acarinhando Carolina

Ah, se você fosse minha rotina
Em seu peito, o coração, a lamparina
De luzes coloridas, enluaradas
Que me velam, queridas, madrugadas.

Desse seu corpo recrio um enfeito
Que em sua poesia meu verso se deite
E o silêncio do toque, nossa eufonia
Dá pra cobrir de beijos uma galeria.

Meu corpo inteiro: armadilha felina
Silencioso arrepio que me apavora
Mas que paciente me amansa, ensina

E a meia luz, desesperada, me devora
Por isso apanho do amor de Carolina
Depois me calo, diplomado em sua escola.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Sobre olhos de materiais de limpeza.

Eu tenho quarenta e nove anos
Já dancei ciranda, samba, bolero,
Já passei montanhas de roupas,
Lavei montanhas de louças
Encerei céus de chãos
Já enterrei meus pais, marido,
Enterrei aquela que me ensinou a ler.
Enterrei os livros que li
Os autores dos livros que li
Enterrei meus atores favoritos
Meus filmes, resenhas, jornais...
Nunca entendi muito de poesia
- Sempre evitei esse desenrolar.
Eu preferi desenrolar os cabelos
Das minhas filhas, sobrinhas, netas.
A filosofia que estudei é mais interna
Minha noção de Deus, de casa, amor,
A responsabilidade de uma nova vida
E as récitas, que eu nunca imaginei récitas,
Enquanto fazia faxina em casa.
Aquele monólogo essencial
A necessidade de juntar sabão, vassouras
E sujeira para limpar a agonia
Dos poemas que não sabia necessitar.

Quando criança escrevia em papeis de pão
E por isso aprendi a nunca aprisionar as palavras
Tudo o que eu queria dizer, tinha que ser dito
Porque poucos são os que leem
E, com isso, aprendi que poucos são os que ouvem.
As palavras simplesmente flutuam a minha volta
E essa minha necessidade de falá-las, chamam poesia.

Eu nunca juntei um par de versos,
Nunca casei uma estrofe, mas já fui casada duas vezes
Primeiro, aprendi a métrica, faltou-me poesia.
Depois, aprendi o sentimento, mas a métrica me faltou.
Não sei respeitar essa mania de perfeição
Pois justo o que me é perfeito, lhe é imperfeito.
Metricamente, a vida me basta
- e às vezes expulsa uns poemas.